O ego: uma faca de dois gumes
O ego pode nos ajudar a crescer ou transformar qualquer discordância em disputa. Como conviver com ele sem deixar que assuma o controle da nossa vida?

O ego: uma faca de dois gumes
O ego é uma faca de dois gumes: muito valioso nas mãos de quem sabe o que faz, mas perigosíssimo para quem ainda não aprendeu a usá-lo. Talvez por isso a gente ache que entende tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco sobre seu verdadeiro papel em nossas vidas. É curioso pensar que nossa sociedade foi construída, em grande parte, sobre o ego, que nos empurra a querer ser especiais, a nos destacar dos outros. Mas basta um deslize e tudo fica de cabeça para baixo.
Será que isso é realmente ruim? Onde está a linha que separa o egocêntrico do sábio? Boa pergunta! Preparei alguns pontos para a gente pensar junto sobre como o ego nos afeta pessoalmente, como influencia quem está à nossa volta e, por fim, como podemos aprender a controlá-lo.
No cotidiano, o ego aparece onde menos esperamos. Quando queremos provar que nosso restaurante favorito é o melhor, que aquele filme foi mais divertido ou que o que dissemos ou fizemos não estava errado. Na verdade, o outro é que não entendeu nosso ponto de vista. Nessas horas, parece que a pessoa está nos atacando, e não apenas criticando uma ideia. O ego é escorregadio: infiltra-se nos detalhes das conversas e até nos silêncios que achamos tão fáceis de interpretar.
E quanto mais alimentamos essa voz com elogios vazios, mais barulho ela faz e menos conseguimos ouvir nossa própria autenticidade.
Gosto muito de uma frase que revela o ego em sua essência:
“Queria ser você, só para ter um amigo como eu.”
É engraçado, mas também traz uma verdade desconfortável. Muitas vezes, nos vemos tão incríveis aos nossos próprios olhos que esquecemos que também somos imperfeitos e que, numa discussão, podemos estar completamente enganados. Se só queremos defender nosso ponto de vista, sem nem tentar entender o outro lado, é como se esperássemos que todos fossem uma cópia de nós mesmos.
Por que sentimos tanta necessidade de que nossa opinião seja validada, de que o outro nos escute e aceite? Quando foi que deixou de ser normal simplesmente discordar?
Parece até que pensar diferente virou pecado. Para alguns, uma simples conversa sobre futebol, notícias ou até sobre como preparar um café vira discussão, quando o objetivo era só compartilhar uma opinião. O ego acaba se colocando acima de tudo.
Primeiro penso no meu benefício, no meu ganho, no meu suposto lugar de destaque. O ego faz parecer que, para sermos felizes, os outros precisam ver o mundo como a gente.
Um novo celular, uma promoção, mais curtidas nas redes… mas sempre surge algo a mais que faz parecer que ainda falta alguma coisa.
Como escreveu Jean de La Fontaine:
“A pessoa gananciosa perde tudo por querer ganhar tudo.”
Na busca por aprovação ou por ter razão, esquecemos de aproveitar o que já temos e de escutar quem realmente se importa conosco a ponto de nos dedicar um pouco do seu tempo.
Mesmo assim, o ego não é nosso inimigo. O ego é como o churrasco para o argentino, as tapas para o espanhol ou o café para o brasileiro. Não importa quanto você tente negar, ele sempre fará parte da sua vida. A necessidade de nos proteger e de sermos ouvidos aparece cedo. Basta olhar para um bebê.
Seu primeiro impulso é chorar para ser atendido, sem conseguir considerar se os outros também estão cansados ou com fome. Esse pequeno ser humano ainda está aprendendo a se relacionar com o mundo e precisa que os outros respondam às suas necessidades para sobreviver. Não é egoísmo, é desenvolvimento.
Mais tarde, como observou Jean Piaget em seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo, as crianças passam por uma fase de egocentrismo natural, em que têm dificuldade para entender que outras pessoas podem ver o mundo de outra forma. Não é vaidade, é um jeito de pensar que muda conforme crescemos.
Ao longo da vida, nossa relação com o ego se transforma. Paramos de chorar e gritar sempre que queremos algo, mas continuamos querendo ser ouvidos. Saber dizer “não” se torna uma ferramenta fundamental para cuidar do nosso bem-estar e da nossa família. Muita gente tem dificuldade nisso. Seja por empolgação, seja pelo medo do que vão pensar, acaba aceitando qualquer pedido ou proposta. Não há nada de errado em dizer “sim”, claro, mas aprender a estabelecer limites saudáveis nos ajuda a construir relações mais equilibradas e a cuidar do nosso próprio bem-estar.
Em outras palavras, um ego bem administrado e equilibrado nos ajuda a crescer, a defender o que queremos e a conviver melhor com quem está ao nosso redor. O segredo talvez seja não deixar o ego tomar conta de tudo, mas encontrar aquele ponto em que ele nos impulsiona sem nos afastar do mundo.
Para chegar lá, é preciso parar de acreditar que a felicidade depende de mudar o mundo externo e entender que a verdadeira transformação começa dentro da gente.
Talvez essa seja a batalha mais difícil: questionar nossas próprias certezas antes de tentar mudar as dos outros.
Revisado e aprovado


